Guia passo a passo

Ela importou o remédio pagando do próprio bolso: participe da consulta pública sobre a ataxia de Friedreich até dia 20

O primeiro remédio específico para a ataxia de Friedreich teve parecer inicial contrário no SUS. Saiba como participar da consulta pública até dia 20.

Por Equipe Direito dos Raros · revisão jurídica Dr. Fernando Zaccaro (OAB/SP 174.554)
· 6 min de leitura

Foto de um homem digitando no notebook em casa, com uma bengala apoiada na cadeira ao lado.

Aos 24 anos, depois de anos sentindo as pernas travarem, perder a firmeza para escrever e não conseguir mais tocar piano, uma jovem recebeu o diagnóstico de ataxia de Friedreich. Soube que existia um remédio específico para a doença, mas, segundo relatou à Conitec, a Justiça negou o pedido para que ele fosse fornecido. Sua família acabou importando o medicamento com recursos próprios: cerca de US$ 100 mil por três frascos, comprados com a ajuda de uma amiga que mora nos Estados Unidos.

Essa é a história que representou os pacientes com ataxia de Friedreich na reunião em que a Conitec, pela primeira vez, avaliou se o SUS deveria custear esse remédio. A recomendação inicial foi não incorporar o medicamento.

O que está em jogo

A ataxia de Friedreich é uma doença genética, hereditária e rara, que causa degeneração progressiva de células do sistema nervoso. Os primeiros sintomas costumam surgir entre 5 e 20 anos, com dificuldade para caminhar e perda de equilíbrio e coordenação. Com o tempo, pode comprometer também os músculos, os ossos, o coração e a produção de hormônios, levando, em média, à perda da capacidade de caminhar cerca de 15 anos após o início dos sintomas.

Hoje não existe um protocolo específico do SUS para a doença: o cuidado é feito com acompanhamento clínico e reabilitação (fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, acompanhamento cardíaco e ortopédico), sem um remédio que atue diretamente sobre a causa da doença.

A omaveloxolona (nome comercial Skyclarys) é o primeiro remédio registrado na Anvisa especificamente para a ataxia de Friedreich em pacientes a partir de 16 anos, registro concedido em abril de 2025. Os estudos avaliados pela Conitec sugerem que o remédio pode reduzir a velocidade de progressão da doença, com benefícios na mobilidade e nas atividades do dia a dia, principalmente quando o tratamento começa em estágios iniciais. Mas o Comitê de Medicamentos também apontou limitações nessas evidências, como a falta de ganhos comprovados na sobrevida e diferenças sem significância estatística em alguns testes de mobilidade.

O principal motivo da recomendação contrária foi o custo: segundo a análise da própria Conitec, cada ano de vida ganho com qualidade custaria cerca de R$ 13,7 milhões, muito acima do que o SUS costuma considerar viável, e a incorporação poderia gerar um impacto de R$ 1,2 bilhão em cinco anos, com mais de R$ 540 milhões só no primeiro ano.

O que é uma consulta pública (e por que ela existe)

Antes de bater o martelo sobre incorporar ou não um remédio ao SUS, a Conitec abre um período de consulta pública: qualquer pessoa pode enviar opinião, crítica, sugestão ou dado técnico sobre a recomendação preliminar, antes da decisão final do Ministério da Saúde. É uma forma de a sociedade, principalmente quem convive com a doença no dia a dia, ser ouvida antes que a porta se feche.

A Consulta Pública nº 101/2026, sobre a omaveloxolona para ataxia de Friedreich, está aberta de 1º a 20 de outubro de 2026.

Por que sua participação pode fazer diferença

O próprio relatório da Conitec reconhece que uma das razões da recomendação contrária foi a falta de evidências de longo prazo sobre os benefícios do remédio. É exatamente nesse ponto que a experiência de quem acompanha pacientes com ataxia de Friedreich no consultório pode pesar: relatos clínicos sobre evolução dos sintomas, resposta ao tratamento e impacto na rotina são o tipo de informação que pode, dependendo do caso, ajudar a preencher essa lacuna.

Pacientes e familiares também podem contribuir, contando como a doença afeta a vida diária e o que esse remédio representaria caso fique disponível pelo SUS. Quanto mais gente participar, mais completo tende a ficar o retrato que a Conitec terá na mão antes da recomendação final.

Passo a passo: como participar

  1. Leia um resumo antes de opinar. O Relatório para a Sociedade explica em linguagem simples os dados que embasaram a recomendação preliminar.
  2. Acesse o formulário da consulta pública. O link oficial é brasilparticipativo.presidencia.gov.br/processes/consultas-publicas-conitec/f/5686.
  3. Faça login com sua conta gov.br. Se ainda não tiver uma, é possível criar na hora. A sessão fica aberta por 30 minutos: se demorar mais que isso, pode ser necessário logar de novo.
  4. Preencha o formulário on-line. Ele pede sua identificação, a forma de participação (pessoa física ou representando uma instituição, com CNPJ) e um espaço para a sua opinião: experiência clínica, impacto na rotina, dúvidas ou dados técnicos.
  5. Anexe documentos, se quiser (opcional). É possível anexar até dois arquivos, desde que não tragam dados pessoais ou imagens que identifiquem pacientes.
  6. Envie o formulário. Sem esse passo, a contribuição não é registrada, mesmo que você tenha anexado arquivos.

Cada pessoa pode enviar uma contribuição por CPF. Se o site mostrar "sistema em manutenção", vale tentar atualizar a página antes de desistir.

Quando procurar ajuda especializada

Enquanto a decisão final não sai, famílias que já têm indicação médica para a omaveloxolona podem estar se perguntando se há algum caminho para conseguir o remédio antes disso. Pode ser possível buscar esse acesso por outras vias, inclusive judicial, mas o resultado depende muito das circunstâncias de cada caso, da urgência clínica e da documentação médica reunida. Vale conversar com um advogado especializado antes de decidir o próximo passo, levando o relatório médico mais detalhado possível.

Análise do Dr. Fernando Zaccaro

"O relato da jovem que representou os pacientes na Conitec mostra bem o tamanho da distância entre ter acesso a um remédio e pagar US$ 100 mil do próprio bolso por ele. A consulta pública é uma das poucas janelas em que essa distância pode, pelo menos, ser mostrada a quem decide. Não garante um resultado, mas pode ser possível que relatos clínicos de médicos e a experiência real de pacientes e famílias pesem numa decisão que hoje se apoia, em boa parte, em uma conta de custo. Enquanto isso não se resolve, cada família que já tem indicação para o remédio merece uma análise individual sobre os caminhos possíveis."

— Dr. Fernando Zaccaro, advogado especializado em Direito dos Raros (OAB/SP 174.554)

Dúvidas frequentes

O que é uma consulta pública da Conitec?

É uma etapa do processo oficial de decisão sobre quais remédios e tecnologias entram no SUS. Depois de uma recomendação preliminar do Comitê de Medicamentos, qualquer pessoa (pacientes, familiares, profissionais de saúde e sociedade em geral) pode enviar opinião, crítica ou sugestão antes da recomendação final da Conitec.

Minha opinião pode realmente mudar essa decisão?

A Conitec informa que analisa todas as contribuições recebidas antes de formar a recomendação final, mas isso não garante um resultado específico. Ainda assim, contribuições com experiência clínica e dados concretos tendem a pesar nesse tipo de avaliação, especialmente quando o relatório técnico aponta que faltam evidências de longo prazo.

Preciso ser médico para participar, ou posso buscar o remédio de outra forma se ele não entrar no SUS?

Não é preciso ser médico: pacientes e familiares também podem participar. A opinião de profissionais de saúde que acompanham pacientes com ataxia de Friedreich tem peso especial, pela experiência clínica. Se o remédio não for incorporado ao SUS, pode ser possível buscar acesso por outras vias, inclusive judicial, mas isso depende das circunstâncias e exige avaliação individual com relatório médico detalhado.

Cada caso é único.

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