Alan Alda segue trabalhando com Parkinson aos 90 anos. No Brasil, a realidade costuma ser bem diferente
Alan Alda, aos 90 anos, segue trabalhando com Parkinson. No Brasil, a realidade costuma ser bem diferente. Veja o que a lei garante a quem precisa se aposentar.

O ator Alan Alda, aos 90 anos, virou notícia ao falar sobre conviver com Parkinson sem deixar a doença "definir" quem ele é, seguindo a trabalhar normalmente. É uma fala bonita, e para muita gente que recebe o diagnóstico ela pode até soar como um alívio.
Mas, para a maioria de quem vive Parkinson no Brasil, a pergunta real costuma ser bem diferente da dele. Não é "como eu continuo trabalhando", e sim "como eu vou sustentar a casa quando o corpo já não acompanha mais, e a aposentadoria não sai do papel".
O que Alan Alda disse
Em entrevista ao programa CBS Sunday Morning, exibida em 4 de outubro, Alda falou sobre conviver com Parkinson, diagnosticado em 2015. Disse: "não deixo que o Parkinson me defina. Não é quem eu sou. É apenas um hobby". Contou também que vem encontrando novas formas de fazer tarefas que antes eram automáticas, e que o trabalho continua sendo parte importante da sua vida.
Ele não deu detalhes sobre sintomas pessoais nem sobre o tratamento que faz, e esta análise não especula sobre isso. O que vale destacar, de forma geral, é que o Parkinson evolui de maneiras diferentes em cada pessoa: em fases mais iniciais, os sintomas costumam ser mais discretos e respondem melhor à medicação; com o avanço da doença, podem comprometer bastante a mobilidade, o equilíbrio e a fala.
Por que a realidade no Brasil costuma ser outra
Para muita gente que vive Parkinson no Brasil, o problema não é querer parar de trabalhar sem conseguir. É o oposto: a doença já limita o dia a dia (mãos que tremem, equilíbrio que falha, fala que fica mais difícil), e a pessoa precisa parar, mas esbarra na burocracia para conseguir o benefício.
Quem trabalha em serviços manuais, no comércio, dirigindo ou em pé o dia inteiro, por exemplo, sente o impacto da doença de um jeito muito mais direto do que quem atua, como o Alan Alda. Também pesa o acesso: nem todo mundo consegue acompanhamento regular com neurologista, nem sempre o remédio certo está disponível no SUS, e a perícia do INSS pode demorar meses.
É por isso que, para a maioria dos nossos pacientes, o que importa de verdade não é "posso continuar trabalhando", mas sim "como eu provo que já não posso, e com que rapidez".
Caso ilustrativo: imagine uma auxiliar de limpeza de 58 anos, diagnosticada com Parkinson há 3 anos, que já sente dificuldade para segurar objetos e manter o equilíbrio no trabalho. Mesmo tendo contribuído pouco tempo ao INSS, ela pode não precisar completar um longo período de carência, já que o Parkinson está entre as doenças que dispensam essa exigência. (Exemplo fictício.)
O que a lei garante
A Lei 8.213/91 inclui o Parkinson na lista de doenças que dispensam a carência, ou seja, o tempo mínimo de contribuição normalmente exigido para o auxílio por incapacidade temporária ou a aposentadoria por incapacidade permanente. Na prática, isso pode facilitar o acesso ao benefício justamente para quem mais precisa dele rápido, mesmo com pouco tempo de contribuição.
Ainda assim, não basta o diagnóstico: é preciso que a perícia médica do INSS reconheça que a doença realmente incapacita para o trabalho. E, por isso, a documentação médica reunida ao longo do tempo costuma fazer toda a diferença.
O que fazer agora
- Converse com o neurologista sobre o impacto real da doença nas suas atividades de trabalho, não só sobre os sintomas em geral.
- Guarde o relatório médico de cada consulta, com a descrição das limitações, não só o diagnóstico.
- Procure o INSS para a perícia quando a doença já estiver comprometendo o trabalho, lembrando que o Parkinson pode dispensar a carência.
- Se a perícia negar o benefício, reúna a documentação médica e avalie recorrer, administrativa ou judicialmente.
- Busque orientação previdenciária se tiver dúvida sobre o caminho ou sobre os prazos.
Quando buscar ajuda especializada
Pode valer a pena buscar orientação previdenciária assim que a doença começar a limitar de forma concreta a rotina de trabalho, ou quando o INSS negar o pedido. Cada caso depende do grau de evolução da doença, do histórico de contribuição e da documentação médica reunida, por isso a análise precisa ser individual.
Análise do Dr. Fernando Zaccaro
"A história do Alan Alda é bonita, mas, no consultório, a realidade que vejo é quase sempre o oposto: pessoas que já não conseguem mais trabalhar e precisam do benefício para sobreviver, enfrentando perícia demorada e negativa do INSS. A lei até facilita esse caminho para quem tem Parkinson, dispensando a carência, mas é preciso reunir o relatório médico certo e, muitas vezes, insistir. Cada caso depende da evolução da doença e da documentação, por isso a análise precisa ser individual."
— Dr. Fernando Zaccaro, advogado especializado em Direito dos Raros (OAB/SP 174.554)
Dúvidas frequentes
Toda pessoa com Parkinson chega num ponto em que não consegue mais trabalhar?
Não necessariamente: o Parkinson evolui de forma diferente em cada pessoa, e os sintomas variam em intensidade com o tempo. Mas, quando a doença passa a limitar de fato a capacidade de trabalho, pode ser possível buscar o benefício do INSS, e cada caso depende de avaliação médica individual.
Parkinson dá direito a algum benefício do INSS sem tempo mínimo de contribuição (carência)?
O Parkinson consta na lista de doenças da Lei 8.213/91 que dispensam a carência normalmente exigida para o auxílio por incapacidade e a aposentadoria por incapacidade permanente. Mesmo assim, é preciso comprovar, por perícia médica, que a doença realmente incapacita para o trabalho. Cada caso depende de avaliação individual.
O que fazer se o INSS negar o benefício ou disser que ainda dá para trabalhar?
Pode ser possível recorrer administrativamente ou buscar a via judicial, principalmente quando o relatório médico já aponta uma limitação clara para o trabalho. Vale reunir toda a documentação médica antes de decidir o próximo passo, e buscar orientação previdenciária para avaliar o caso.
Bons Fluidos: Aos 90 anos, Alan Alda revela como lida com os desafios do Parkinson (apenas um hobby) (8 de outubro de 2026)
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